

Suas obras/pinturas acabam por transcender a monumentalidade trazendo uma leitura da grandeza da natureza e consequentemente para os dos danos que o homem tem causado.





Meu blog é meu diário, meu blog é minha carta. Não sei se no meu blog devo usar meu nome autoral ou meu nick especial. Meu, meu, meu... O que ficou pra mim na partilha dos espaços? Tenho inveja do Sérgio Sant’Anna, que senta na cadeira, em frente ao computador, e digita contos, digita obras primas. A fonte do Sérgio jorra permanente. Todos à minha volta estão sentados, estão produzindo, e eu aqui. Caminho pelo apartamento, com passadas vigorosas. Quero malhar, mas chove lá fora. O Silviano Santiago está fazendo a revisão final de seu novo e - creio - importante livro, que ele vem escrevendo há meses e meses, estudo comparativo entre as obras fundadoras de Octavio Paz e de outro Sérgio, o Buarque de Hollanda. Meu blog é confidência. Confidência, inconfidência. Minha doce amiga, obstinada das letras, Márcia Denser, está para lançar Caim, uma novela ou, pelas dimensões, noveleta de primeira linha, texto intenso. Lançando mão de uma estrutura dramática (dialógica), La Denser faz a escavação fria de uma saga familiar e seus demônios, surfando entre ego e alter ego, entre nome e nick. Ela já descobriu esse jogo faz tempo, desde Diana Marini. E agora encontra o encanto do enigma, da cifra como motor do poético.
Meu blog é quero-quero. Quero malhar, quero nadar, puxar ferro. Mas chove lá fora. Quero surfar. Pela linguagem, pelo mar. Sou Caeiro tropical, pelas veredas do corpo-sertão, nem sempre tolero ler, jogo livros ao mar. Não tolero ler, foi o que me disse outra amiga, pedindo-me anonimato, pois é professora de letras e mãe de crianças tidas como neuróticas, pois se divertem lendo – gostam mais de livros que de games. Dizia-me ela, sem nome porque sem nick: só tolero o tempo-espaço do jornal, dos sites, da poesia moderna, tudo assim, picadinho. Nietzsche já tinha observado: o leitor moderno é desse jeito, dispersivo, vai de déu em déu, pica-flor, de trecho em trecho, de frase em frase. (Poetar, frasear.)
Ler também pode ser um recurso de procrastinação. O melhor do escrever é procrastinar? O melhor do sexo é a preliminar? Furor do amor, furor de ler. Essa semana consegui. Foi uma decisão furiosa. Joguei ao mar o Mal de Arquivo, do Derrida, e meti-me entre as páginas do novo livro de Raúl Antelo, que devoro lentamente, como uma traça cheia de tesão, sem dentes. O livro me exige, vou lendo e anotando, lendo e anotando. Para anotar, uso um lápis, que preciso apontar toda hora. Ler um livro exigente, de cabo a rabo, ao longo de vários dias, é diversão artesanal, reminiscência de outro tempo no labor do corpo, rumoreja. Raúl Antelo é argentino-brasileiro, um dos maiores pesquisadores universitários de letras da atual geração em nosso país. Mora e trabalha no desterro de Floripa, mas vive sem-terra voando de mundo a mundo. Este seu livro, Maria con Marcel (Duchamp en los trópicos) é sobre os encontros de Marcel Duchamp com a escultora brasileira Maria Martins. Houve o encontro amoroso, mas o livro aborda o encontro artístico.
Tão cosmopolita, mas tão brasileiro, o livro de Raúl está publicado em espanhol, por uma editora de Buenos Aires, a Siglo Veintiuno. Depois de uma introdução por demais dificultosa, que por isso me parece dispensável numa possível – e urgente - tradução brasileira, Raúl começa buscando renovar a visão usual que se tem das conexões latino-americanas de Marcel Duchamp. O artista passou temporada em Buenos Aires, entre 1918 e 1919. Sua persona biográfica e autoral é tratada por Raúl como uma espécie de ready-made nem tão perdido assim na cidade que se moderniza. Erudito pós-moderno que é, grande resgatador de textos nos arquivos da modernidade nacional e continental, Raúl nos brinda com a redescoberta dos interessantes e inteligentíssimos relatos de Katherine Dreier (amiga e mecenas de Duchamp, que o acompanhou na viagem à Argentina) sobre a greve geral anarquista ocorrida em Buenos Aires em 1919 – qualquer semelhança com a greve geral de 1917 em São Paulo não pode ser mera coincidência. Mais instigante ainda é o resgate do encontro entre o artista e sua mecenas com o diretor da Seção de Antropologia do Museu de La Plata, o etnógrafo Robert Lehmann-Nitsche. O espaço duchampiano, que é o espaço em que as artes plásticas ainda existem hoje, recebe assim colorações muito nossas, colorações de nuestra America, isso que eu e Raúl chamamos de “modernidade periférica” quando nos encontramos em congressos de professores.
Será o prazer de procrastinar karma inerente ao professor-escritor?
A China é periferia?
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A história te fará as revelações que mereces (Nietzsche, citado por Raúl Antelo). O cosmopolitismo de Maria Martins, se foi de pobre um dia, teve desde sempre linhagem nobre: afilhada de Euclides da Cunha, filha de João Luiz Alves, casada em primeiras núpcias com Otavio Tarquinio de Souza e depois... mulher de diplomata. Tantos nomes. E que nomes. Se quiseres saber direito quem são, procura na Internet. Não sei se tem na Wikipédia. Mulher de diplomata. Como Clarice Lispector. A voar, a voar, pelas asas da Panair. Sabes da Panair? O que há da “mulher de diplomata” em mulheres assim? que jogaram os maridos pelos ares ao mar do esquecimento - e construíram nomes autorais. Da mesma forma que a brasileira Cecília Meireles e o mexicano Octavio Paz, Maria Martins voou até o outro lado do mundo e buscou ligar-se ao pensamento oriental. Raúl Antelo resgata e relê os livros que ela escreveu sobre suas viagens e pesquisas a respeito do Extremo Oriente (Ïndia, China), mostrando como essas experiências nela se ligaram à brasileiríssima estética do modernismo antropofágico para resultarem performaticamente nas esculturas. As esculturas de Maria - das quais Raúl forceja por extrair um sabor surrealista, o sumo da Iara, a suculenta cera, eros empapado de mãos, de moldes modelagens. Eros, Maria. Eros, Volúsia.
E assim, usando a teoria e, até certo limite, o método da deriva labiríntica, Raúl Antelo vai ligando miríades de tópicos, temas e conceitos, tendo como fio condutor o que por minha conta e risco de leitor aplicado e interessado, porém não tão especializado quanto o texto dele pressupõe, classifico como projeto de uma arqueologia da estética do informe no século 20, pelo viés desse problemático espaço-tempo, a “modernidade periférica”. Imaginário periférico. Central da periferia. Sistema nervoso periférico. Circuitos periféricos, capilares, vertiginosos, axiais. A cada ponto de associação entre documentos ou entre vocábulos, vem no texto de Raúl um nó: ensinamento útil sobre arte moderna e pós-moderna, em linguagem de escol, com precisão de verbete, formatação lapidar. O limite da deriva é a necessidade de ponto final. A pesquisa é infinita, o livro é finito. Escrever aqui é tecer, a partir de fios puxados da rede erudita existente sobre modernismo estético, o incessante sussurro coletivo da comunidade de especialistas, rede sussurro tecido trans-temporal, urdido no espaço intelectual – o arquivo universal. Escrever é tecer? Derridá? Para mim, lápis é agulha, frase é linha, a tela é o prêt-à-porter, a pronta entrega, delivery, délivrance, escrever é parir? Ato doloroso. A procrastinação é a dor do parto, é curtir dentro da dor. Mais penoso que escrever um livro aos 50, sofrer nesse paraíso, é escrever uma tese de doutorado aos 35. Foi quando descobri o ato de ler como recurso de procrastinação, forma de adiar pela simulação a intensidade exigente do ato de escrever. Tempo de máxima concentração, furor solitário, briga titânica com a dispersão. Torre de marfim, bunker defeso, underdog. O importante é começar. A partir daí, jorra permanente. Escrever suga o tempo. O jorro é começo e fim do trabalho no tempo, da negociação com o tempo.
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Meu blog é minha cabeça fragmentada, é meu jornal. Meu blog não é meu orkut, que carrega meu nome, criado por terceiros. No blog tenho nick, sussurro segredo no teu ouvido, alto e bom som. Megafone do mais íntimo ser, super-exposição. O eu também é recurso de cultura. Vaidade é capital. Vc tem todo o direito de ser vaidos@. Vaidade, orgulho, auto-estima. Pode? Quem pode? Auto-estima, auto-depreciação. No blog, sou inconfidente, tento a poesia, a poesia dói tanto da verdade que se traveste toda de mentira, ela toda estilização, toda fashion-máscara, nick-e-l’odeon, neon, puro brilho. Não sou do brilho, sou da paz e da inspiração. A paz do deserto. A inspiração perdida no deserto infinito. Areia e erosão. Procrastinação, travessia de um deserto, meu deserto sem flauta de Anfion, sem mais nada, mar de ensimesmar, musical e televisual, fantasmal. Passeio em arquivos, procuro inspirar-me em jornais antigos para começar meu novo livro. Cara, não inventa, procrastinação é preguiça, e a melhor palavra para designá-la é enrolação. Então você vai querer me convencer que enrolação é preguiça? Enrolação é negociação entre o nome e o nick, é a demora na produção da máscara adequada, do tom adequado.
Assumir a preguiça. A vagabundagem tensa do escrever poético. Enlangueço sobre o divã, ao som de Mahler. Dei de presente uns lieder de Mahler para a poeta Lu Menezes pelo aniversário dela. Eu quis muito dar um presente assim para a Lu, porque ela é dessas pessoas que chega até a ponta de lâmina de uma estesia meticulosa, ela sabe. O lied alemão pra mim é o máximo que se pode querer em matéria de lírica (poesia+música). Pena que não sei fazer uma análise técnica musical de cada lied, como faria facilmente o nosso (meu e de Lu) velho amigo, parceiro, mano, Paulo Henriques Britto, que sabe ler pauta e sabe tudo de música, do puro ritmo do rock à música-divina-música do clássico. Eles vão e eles vêm. E de novo. Repetição que nunca se repete igual, até chegar ao estupor do irrepetível – aquilo que permanece constante, evocando o rumor rancoroso do sono mineral. Areia, erodir. Os deuses da concentração me abandonaram neste deserto sem formas, com seus fantasmas cambaios, mutilados. Intuitivamente pressinto que no lied cada sílaba poética corresponde a uma nota ou tom musical e posso dizer também que a lei da concisão chega no lied a seu máximo de perfeição. Perfeição, teu nome é lied. Teu nome é Mahler. Teu nome é Schubert. Teu nome é Titãs.
Meu blog é meu rap, é meu verso, meu versar. Meu cronicar, meu mal crônico. Falar a esmo, escrever por espasmos, derivar, derivar – a lei do léu, a lei do ler por prazer, o ler como ato gratuito. O procrastinar como fundamento do escrever, fundamento do ser. Sou beija-flor pica-flor de cazuza boneco, à procura de açúcar, quero-quero açúcar, mais um café. Mais um café, mais um back, mais um black – hole: explodiu de luz. A chuva parou. O sol esquentou. Passa de meio-dia. Ainda não escrevi uma linha, me liga mais tarde. Meu blog é o arquivo enlouquecido, é o livro que não nasceu, é o brincar a sério como preparação para o ato. Vamos cometer o ato da escrita, juntos, brincando com nome, com nick, com autoria, com anonimato. Como no novo tipo de discurso interativo que nasce na fronteira entre a literatura e a comunicação. Quem tem nome tem poder. Quem tem nick tem poder. Mas o anonimato também é uma força de escrita. As cartas para ninguém. O diário de mim para comigo. Os contos que enviam para o Paulo Coelho. O anonimato também é força movendo o texto, que navega, solto, à espera de engates, pelo multi-espaço simultâneo das estradas virtuais. Meu corpo com nome e nick é tocável e intocável, oferenda inatingível, é mascarado, sertão palmilhado. Sou traça e traço, rastro de Caeiro, me reacende o toque do dedo alheio, e assim me alheio. Alheias areias da luz que se faz. Movimento digital da criação. Um último café. Largar a enrolação. Fechar o livro. Deixar descansar o lápis. Ativar o on que é off. A tela ilumina o fim de tarde contra a parede. Você escreve, eu te leio, eu escrevo, nós.
Há bastante tempo que não ando pelas bandas da blogosfera... sinto falta dos amigos que fiz por aqui, de seus textos, histórias, fotografias. Mas, como eu havia dito em posts anteriores, precisei me afastar um pouco para dar conta do recado do mestrado e de outras coisas da vida. Mas, deixei um espaço aqui reservado para voltar quando a saudade batesse, para trocar palavras, emoções e até, quem sabe, algumas alegrias. Afinal, eu sempre soube que, a qualquer momento, iria voltar!
Em 12 de janeiro último, ocorreu uma chuva como nunca houve na história de Nova Friburgo. Choveu em uma noite e, em uma madrugada, a quantidade de água para chover um mês.
Ocorreu um fenômeno da natureza que transformou, com deslizamentos de terra, árvores, pedras, rochas, a geografia da bela cidade da serra do mar. Os cursos dos rios fizeram novos caminhos, abriram espaços inimaginados em meio a casas, pessoas, ruas, estradas e montanhas.
A face do que pôde ser visto foi absurdamente trágica. Muitas foram as vítimas fatais, inclusive amigos muito queridos e uma amiga muito especial - Erotides Guerra - pessoa queridíssima, de enorme alegria e vontade de viver. A casa dela foi minha primeira morada quando cheguei em Nova Friburgo, em janeiro de 1993.
Para nós que ficamos e que, de alguma maneira, sobrevivemos, resta sempre a tarefa de pedir paz e desejar plenamente que o Sol com sua magnificência arrebate as almas - de todos que se foram nesta tragédia - em seus reencontros com o divino.
(na foto acima, Tide e sua neta Carolina que partiu junto com ela)


Sam Spencer